A Wine Teller by Andre Silva

A COR DA CRISE – Nota de Angelo Gaja

E se 2021 fosse a continuação do ano horrível do vinho italiano? Antecedentes não faltam.

Trombetas soam na Itália para a colheita de 2020, que promete ser a mais rica em uvas do mundo. Não é um recorde invejável diante de uma crise de consumo sem precedentes que está afetando todos os mercados e envolvendo TODAS as vinícolas do mundo, inflando seus estoques. Para lidar com isso, o ministro Bellanova havia previsto medidas de destruição de uvas e vinho (destilação) financiadas com 150 milhões de euros de dinheiro público, mas que chegaram tarde e foram usados ​​para apenas um terço.

O erro, no entanto, não é de Bellanova, mas dos assessores externos que se reportam a várias associações e consórcios e comparecem às bases sociais. Aqueles que a princípio não quiseram ouvir falar de destilação, para depois conceder apenas aos vinhos de mesa, enquanto os vinhos IGP e DOP precisam dela. Aqueles que preferiram medidas a favor da armazenagem, incentivando o acúmulo de estoques na adega, confiando no rápido fim da crise e na pronta recuperação do consumo, que ao invés disso não existirá e a agonia continuará. Aqueles que adiantaram mil reservas, abrandando e tornando intempestiva a entrada em vigor das medidas de intervenção pública, fazendo-as perder a eficácia.

O setor do vinho passará por uma crise mais longa, ligada ao Ho.Re.Ca e ao turismo. Até agora, tem havido uma chuva de números reais-estimados-prováveis-falsos, mesmo de fontes confiáveis, para comentar sobre o progresso da crise. Somente no final do ano será conhecido o estoque total de vinho nas vinícolas italianas e esperadas más notícias. Também no final do ano, face ao preocupante declínio do volume, ocorrerá a mais dramática e evidente queda no valor das exportações de vinhos italianos. Quando as demonstrações financeiras das mega vinícolas italianas forem tornadas públicas na primavera de 2021 e os verdadeiros números forem revelados, será evidenciado que para muitas delas as perdas no faturamento em relação a 2019 terão ultrapassado 20%. A perder, porém, serão os viticultores que vendem uvas e as pequenas e médias vinícolas artesanais, o maior e mais frágil setor. É a eles que o Ministro Bellanova deve esperar alocar mais recursos durante o confronto que conduzirá com assessores externos.

Neste momento de grave emergência, medidas extraordinárias são necessárias. A primeira preocupação deve ser tentar reequilibrar o mercado, dando prioridade a um projeto de destilação ampla e inédita que também inclui vinhos IGP e DOP, a ser iniciado IMEDIATAMENTE para permitir a recuperação do quase 100 milhões não gastos na medida anterior, para depois concluí-la em 2021. Inspirando-se no que a França já tinha feito sabiamente antes de nós.

Também seria útil introduzir na Itália para os próximos dois a três anos a proibição do uso de mosto concentrado retificado, que constitui o incentivo por excelência para quem o utiliza para produzir maiores volumes de uvas na vinha.

O pedido de mais financiamento para a promoção é bom, permitindo acesso até mesmo a projetos de investimento limitados. Não esquecendo que, nos próximos dois ou três anos, haverá um caos nos mercados internacionais porque as adegas de todo o mundo terão tanto vinho que sairá pelas suas orelhas e estarão tentando recoloca-los nos mercados. São necessárias novas ideias, pensar em usar apenas as ferramentas do passado não trará grandes benefícios antes do retorno à normalidade.

Angelo Gaja

7 settembre 2020

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